E necessário excluir o glúten da dieta?

E necessário excluir o glúten da dieta?

A grande questão a ser considerada atualmente é a quantidade de glúten
ingerida diariamente pela população. Em indivíduos saudáveis, a exclusão total de glúten da dieta não seria necessária, entretanto, sabe-se que no ano de 2009 o trigo sofreu modificações genéticas, com hibridização e irradiação de sementes, e após tais procedimentos poucos testes com animais foram realizados a fim de testar este ”novo” glúten produzido. Ademais, sabe-se que atualmente os produtos apresentam quantidade de glúten significativamente maior, quando comparados aos produtos produzidos há algumas décadas atrás, acarretando em uma maior ingestão desta substância pelos indivíduos que consomem produtos derivados do trigo, do centeio, da cevada, e de outros grãos ricos em glúten.

O que é a doença celíaca?

A doença celíaca (DC), também conhecida como Enteropatia Glúten-Induzida ou Alergia ao Glúten, resulta de uma resposta imune inadequada ao glúten em pessoas geneticamente predispostas.

Doença celíaca

Constitui-se de uma enfermidade multifatorial, envolvendo componentes imunológicos, genéticos e ambientais em sua etiopatogenia. É a combinação de alguns destes fatores e suas interações com os fatores ambientais que induzem à patologia intestinal. A DC possui mecanismo autoimune, e identificação clara do fator ambiental desencadeante (o glúten) e do auto-antígeno envolvido (a transglutaminase).

Doença Celíaca

Esta doença pode apresentar-se de maneiras diferentes:

Tipos de Doença Celíaca:  

Clássica

Inicia na infância, após a introdução do glúten na dieta, apresentando diarreia crônica, vômitos, irritabilidade, anorexia, déficit de crescimento, distensão abdominal, diminuição do tecido celular subcutâneo e atrofia da musculatura glútea. Nos casos com grave má-absorção intestinal ocorre a desnutrição.
Predomínio dos sintomas gastrintestinais. 

Atípica

Manifesta-se mais tardiamente, com quadro mono ou paucissintomático. Os pacientes deste grupo podem apresentar manifestações isoladas, déficits nutricionais (e consequências, como osteoporose, anemias, déficit de estatura, etc.) ou por reações imunológicas acometendo outros órgãos.
Predomínio de sintomas não gastrintestinais. 

Silenciosa

É encontrada em indivíduos aparentemente assintomáticos, que apresentam sorologia positiva e padrão histológico idêntico à forma clássica, com atrofia parcial ou subtotal da mucosa intestinal, e que respondem à dieta isenta de glúten.
Assintomática, apesar da presença de lesão intestinal característica. 

Latente (2 tipos)

1) Pacientes com diagnóstico prévio de DC, que responderam à dieta isenta em glúten, e apresentam histologia normal ou apenas aumento de linfócitos intraepiteliais;
2) Indivíduos com mucosa intestinal normal, sob dieta com glúten, que subsequentemente desenvolverão DC.

Refratária

Pacientes com DC que não respondem à dieta isenta em glúten.

Na doença celíaca ocorre uma importante agressão à mucosa intestinal, principalmente tratando-se de indivíduos não diagnosticados, que seguem ingerindo alimentos que contêm glúten. É importante lembrar que, a partir desta agressão e achatamento das vilosidades intestinais, pode ser desencadeada a intolerância à lactose, visto que a enzima lactase encontra-se no ápice das vilosidades e sua produção também pode ser afetada gradativamente. Sendo assim, indivíduos celíacos podem desenvolver, secundariamente, a intolerância à lactose. Além disto, o achatamento das vilosidades intestinais dificulta a absorção dos nutrientes ingeridos pela dieta, apresentando-se como um importante fator de risco nutricional.

Prevalência

A partir de estudos epidemiológicos realizados na Europa, América do Sul, Austrália e Estados Unidos, observou-se uma prevalência de Doença Celíaca de 0,5 a 1% nestas populações, o que a identifica como uma das doenças crônicas mais prevalentes em crianças; entretanto, muitos casos permanecem não diagnosticados, como pode ser observado no “iceberg do celíaco”:

doença celíaca

Nos estados Unidos, observou-se que 1 em cada 133 habitantes são diagnosticados com doença celíaca. Além disto, a prevalência no sexo feminino é duas vezes maior do que no sexo masculino.

 

Quadro Clínico
A doença celíaca pode ser classificada de acordo com seu grau de acometimento das vilosidades intestinais. Esta classificação é denominada como ESCALA DE MARSH.

ESTÁGIO MARSH 0: Nenhuma alteração nas vilosidades intestinais.
ESTÁGIO MARSH 1: número aumentado de linfócitos intra-epiteliais, geralmente mais de 20 a cada 100 enterócitos. Início da agressão ao inestino delgado;
ESTÁGIO MARSH 2: proliferação das criptas de Lieberkuhn;
ESTÁGIO MARSH 3: atrofia completa ou parcial das vilosidades, apresentando-se como um estágio avançado da agressão à mucosa;
ESTÁGIO MARSH 4: hipoplasia da arquitetura do intestino delgado. Estágio mais avançado tratando-se do acometimento das vilosidades do intestino delgado, no qual o paciente apresenta maior risco nutricional.

A sintomatologia da DC no adulto baseia-se, principalmente, em quadros de diarreia crônica (mais de três evacuações ao dia – fezes líquidas), perda de peso característica, anemia ferropriva, distensão abdominal (um dos principais sintomas), e cansaço generalizado. Entretanto, além dos sintomas intestinais característicos, a DC também pode acarretar em sintoma extra intestinais, tais como:

Dermatologia: dermatite herpetiforme, que são lesões parecidas com herpes que aparecem nos cotovelos, joelhos e nádegas, principalmente;
o Endocrinologia: diabetes tipo I, tireoidite levando ao hipotireoidismo;
o Hematologia: púrpura trombocitopênica, deficiência de ferro, vitamina B12, deficiência de vitamina K levando ao cansaço, fraqueza, sangramento e hematomas;
o Ginecologia e Obstetrícia: infertilidade, abortamentos e menopausa precoce;
o Reumatologia: artralgias, artrites, osteoporose, deformidade óssea;
o Neurologia: enxaquecas, miopatias, fraqueza motora, déficit de aprendizado, irritabilidade, epilepsia, autismo, esquizofrenia, depressão;
o Odontologia: hipoplasia do esmalte dentário, aftas frequentes;
o Hepatologia: hepatite autoimune, insuficiência hepática, aumento de enzimas;

o Oncologia: nos pacientes com longo tempo de atrofia e agressão intestinal pode ocorrer linfoma intestinal.

Diagnóstico
A investigação para Doença Celíaca inicia pela suspeita clínica, devendo ser cogitada em todo paciente que apresente diarreia crônica, distensão abdominal, flatulência, anemia ferropriva, osteoporose de início precoce, elevação de transaminases, familiares de primeiro e segundo graus de pacientes com DC, síndrome do intestino irritável, hipocalcemia, deficiência de ácido fólico e vitaminas lipossolúveis.

O diagnóstico é realizado através de biópsia da mucosa intestinal (padrão ouro) na sequência de uma endoscopia digestiva, e/ou da resposta à dieta isenta de glúten (trigo, centeio, cevada e aveia).

Após a biópsia, pode-se realizar o exame de antitransglutaminase, não apenas como método diagnóstico, mas também com fins de verificar a aderência do paciente ao tratamento dietético. A dieta isenta de glúten não deve ser iniciada antes de possuir um diagnóstico fechado concedido pelo médico, a fim de evitar resultado falso-negativo.
O exame de Antitransglutaminase tecidual – ELISA é um ensaio não invasivo de fácil utilização, que fornece uma alternativa eficiente para realizar o screening em crianças ou adultos com suspeitas clínicas da doença colítica. Referência: 10 U/mL.

doença celíaca

À seguir, apresentamos um fluxograma para melhor visualização do processo de diagnóstico da DC:

doença celíaca